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A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 1
(The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 1)
Romance - 2011 (Estados Unidos)
Bella Swan precisa decidir entre o mundo dos humanos e o mundo dos vampiros, enquanto está cada vez mais apaixonada pelo vampiro Edward e mais ligada ao lobisomem Jacob.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Bill Condon. Com: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Billy Burke, Sarah Clarke, Ashley Greene, Peter Facinelli, Elizabeth Reaser, Kellan Lutz, Nikki Reed, Anna Kendrick, Michael Sheen, Maggie Grace, Christian Camargo.

            Bella Swan precisa ser internada urgentemente em uma clínica psiquiátrica e mantida sob observação constante enquanto os antidepressivos inevitavelmente receitados pelos médicos não fizerem efeito. Continuando a exibir tendências suicidas inquestionáveis (algo que comentei ao discutir Lua Nova), a moça já insistiu para ser mordida por um vampiro, despertou o interesse de um lobisomem, entregou-se a atividades extremamente perigosas apenas para tentar entrar em contato com o amado e aqui decide ir para a cama com Edward antes de ser transformada mesmo depois de alertada que isto poderia resultar em sua morte – e, claro, ao ficar grávida de um bebêssuga, insiste em manter a gestação sem saber que criatura traz no ventre e consciente de que provavelmente será por ela destruída. E se alguém ainda duvida de sua profunda depressão, basta observar que, mesmo prestes a se casar com o homem que perseguiu por tanto tempo, ela mantém a velha expressão de tristeza e os modos melancólicos que a estabeleceram como a menos sedutora das adolescentes (bom, ela ganha daquelas que se filmam gritando enquanto assistem a um trailer, mas por pouco).

            Roteirizado por Melissa Rosenberg, que gastou todo o seu talento em Dexter, este Amanhecer Parte 1 segue a receita da Warner para explorar uma série lucrativa ao dividir o livro de Stephenie Meyer em dois longas – mas se no caso de Harry Potter havia um universo imaginativo e personagens ricos que se beneficiaram de mais tempo de projeção, aqui a trama tola e repetitiva de Meyer apenas ganha mais duras horas para entediar o espectador enquanto seu casal principal repete a mesmíssima rotina dos três filmes anteriores: Edward banca o nobre enquanto mantém domínio absoluto sobre Bella; a garota olha para tudo com expressão deprimida enquanto tenta se matar de todas as formas; e Jacob corre pelas matas e manifesta sua raiva ao tirar a camisa – algo que aqui já faz aos cinco segundos de projeção, demonstrando que o diretor Bill Condon fez o trabalho de casa e conhece bem o público-alvo. E se alguém esperava que a eterna resistência do “vampiro” Edward (Pattinson) à consumação de seu amor por Bella finalmente seria abandonada após o casamento, não demora muito até que o sujeito encontre outras razões para não tocar na garota, deixando-a mais uma vez frustrada (e chega a espantar que ela não se questione quanto ao recorrente bloqueio sexual do marido, que seria capaz de gerar desconfiança até mesmo no mais ingênuo dos seres).

            Vivido por Robert Pattinson com a falta de energia que já testemunháramos nos capítulos anteriores, Edward permanece aqui como o “homem dos sonhos” – isto é, caso alguém realmente “sonhe” com um sujeito sexualmente mal resolvido que ignora os apelos emocionais e físicos da amada, permite que esta abandone amigos, família e estudos por sua causa e não hesita em explorar a óbvia obsessão que esta tem por ele (e que fica patente quando, claramente insegura quanto ao casamento, ela só acerta o passo e abre o rosto ao ver seu noiv... ídolo parado no altar). Ainda virgem aos 109 anos de idade – o que explica por que insistia em frequentar a escola depois de décadas (isto é: as aulas de educação sexual) -, Edward é um idiota com mentalidade adolescente que acredita ter um passado de bad boy por ter matado assassinos décadas antes (oh, que segredo terrível) e que se surpreende ao perceber que sua recusa em transar com a esposa a deixou chateada (“Eu já estraguei tudo!”). Mas pior do que isso é perceber que Amanhecer encara o rapaz como o homem ideal mesmo quando claramente machuca Bella durante o sexo, já que os roxos que cobrem o corpo da garota poderiam ter sido evitados se ele fizesse o óbvio, transformando-a em vampira antes das núpcias (e se não o fez mesmo sabendo o risco que corria de feri-la ou matá-la, isto comprova apenas seu egoísmo e a misoginia já testemunhados nos longas anteriores). Por outro lado, Pattinson ao menos consegue mover as sobrancelhas, já que até isto parece representar um desafio para Taylor Lautner, cujos esforços interpretativos parecem ter sido totalmente devotados ao desenvolvimento dos músculos abdominais. Assim, é um alívio que ao menos Billy Burke, como pai de Bella, consiga demonstrar alguma emoção – mesmo que esta seja a de constante contrariedade, sugerindo que Charlie Swan encontra-se tão aborrecido quanto o espectador por estar sendo obrigado a testemunhar tanta bobagem.

            Falhando nos aspectos narrativos mais básicos, o roteiro de Rosenberg tropeça feio ao deixar para o quarto filme da série a explicação detalhada do conceito de imprinting, que, fundamental para a trama, havia sido citado de passagem em um dos filmes anteriores. Assim, depois de investir intermináveis duas horas num suspense patético sobre o que acontecerá quando os lobisomens finalmente atacarem os “vampiros” Cullen, chega a ser ofensivo que tudo seja resolvido através de uma única fala (“Esta é a lei absoluta dos lobisomens!”) que tem, como centro, justamente a ideia de imprinting recém-apresentada. Para piorar, o tal conceito sugere perigosamente uma ligação pedófila entre Jacob e uma recém-nascida, já que o rapaz é tomado de profundo amor pela criança, imediatamente visualizando-a como uma adulta bela e sedutora. E por mais que as crepusculetes (como carinhosamente batizei as fãs mais agressivas e cegas da série) insistam em dizer que os detalhes estão nos livros, devo apontar que: 1) isto não exime o filme de funcionar independentemente do material original, que não deveria ser obrigatório para a compreensão dos longas; e 2) só me convencerei totalmente de que a ligação de Jacob com a criança não tem conotações pedófilas caso este jamais se envolva amorosamente (ou demonstre interesse em se envolver) com esta depois de adulta. Caso contrário, serei forçado a dizer que Meyer não é apenas péssima escritora, mas também insana (e mais uma vez aponto que me forcei a ler quase 40 páginas de Crepúsculo antes de atirar o livro longe ao perceber que Meyer não seria capaz de escrever uma lista de compras).          

            Ou talvez eu esteja enganado e a autora seja brilhante, já que aparentemente conseguiu uma maneira de difundir suas crenças religiosas entre adolescentes impressionáveis – e a série não só defende claramente a abstinência sexual e a subserviência das mulheres como ainda sugere que o sexo tem fins meramente reprodutivos (Bella engravida imediatamente e aos 18 anos, o que é uma tragédia) e o aborto é impensável mesmo quando a vida da mãe encontra-se em perigo. Já do ponto de vista criativo, Meyer é mesmo uma picareta, já que encena o casamento de Edward e Bella apenas para logo voltar à dinâmica do “não posso tocá-la” e investe um tempo imenso num confronto entre lobisomens e “vampiros” sabendo que resolverá tudo de forma artificial e anti-climática (além, claro, de jamais encontrar uma razão plausível para que a tribo de Jacob queira atacar os Cullens, já que a desculpa do “bebê que poderá destruir os humanos” é patética até mesmo para os padrões da série). E se os diálogos continuam sofríveis (“Viva, está bem?”), pior é perceber como a escritora introduz uma “nativa” brasileira como um clichê ambulante do povo primitivo que se revela dono de uma sabedoria baseada em lendas antigas (e o “Nossa!” e o “Morte!” ditos pela tal índia chegam a ser risíveis).

            Sem jamais conseguir imprimir energia ou inteligência a uma série que precisa desesperadamente de ambas, o diretor Bill Condon não escapa nem mesmo do melodrama, em nenhum momento sugerindo ser o mesmo cineasta que comandou obras como Deuses e Monstros e Kinsey – Vamos Falar de Sexo (ou mesmo o mediano Dreamgirls). Em contrapartida, a maquiagem digital usada para emagrecer Kristen Stewart se estabelece como um dos únicos pontos altos da produção, sendo uma pena, portanto, que sirva a uma narrativa tão estúpida.

            E já que mencionei Stewart, é inevitável retornar a esta e à Bella, a mais insossa das heroínas: “Por que não vê que estou feliz?”, pergunta a garota em certo momento ao marido, sem perceber que a resposta talvez resida em sua expressão constantemente deprimida, já que, “vampiro” ou não (Não.), Edward não poderia interpretar de outra maneira os modos melancólicos da garota. Aliás, caso fosse realmente o par tão admirado pelas fãs, o sujeito já teria levado a amada para a terapia há muito tempo.

            E se não o fez ainda, deveria correr, pois algo me diz que Bella é a candidata ideal a uma arrasadora depressão pós-parto. Mas com um marido sexualmente ambíguo e um melhor amigo pedófilo, quem não seria?

21 de Novembro de 2011

 

Abaixo, videocast gravado logo após a sessão do filme:


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